De vez em quando, alguns autores resolvem ousar, sair do senso comum para mostrar novas facetas da vida para o seus leitores. Este é o caso de Roque Neto, que com o seu livro Porque eu amei, abordou temas como homossexualidade e Igreja, que unidos, geram muita conversa.
Conheçam mais sobre ele agora no Literatura de Cabeça:
Escrever sobre um tema tão polêmico como a homossexualidade na Igreja foi dificil? Qual foi sua inspiração para escrever sobre isso?
Procuro fazer da escrita uma fonte de prazer. Escrever sobre homossexualidade no contexto da Igreja católica me ajudou a entender melhor certas situações reais com as quais tive contato.O que me inspirou a escrever PORQUE EU AMEI foi um trabalho para a faculdade. Tive que entrevistar alguns casais homossexuais sobre o modo como lidam com a violência e o preconceito.Entrevistei cinco casais masculinos e três casais femininos, e fiquei impressionado com a quantidade de barreiras que estas pessoas enfrentam todos os dias. Talvez o mais pesado seja a rejeição da família. Algumas famílias são acolhedoras, outras apenas se desligam, como se aquela pessoa deixasse de existir.Um dos casais femininos levantou o problema da religião, já que ambas foram criadas católicas e durante muito tempo participaram ativamente da paróquia. Conciliar a orientação sexual com a religião na qual foram educadas tem sido um desafio para elas, ainda mais agora que adotaram uma criança e desejam batizá-la.
Acha que isso acontece muito na vida real?
Sim. Pessoas que assumiram compromissos, quer seja na Igreja como padre ou freira, ou mesmo pessoas que se casaram podem ter suas convicções questionadas quando percebem que o compromisso assumido não foi fruto de uma escolha livre, mas de medo e culpa.
Na sua opinião, a questão de don’t tell, don’t talk (não contar e não falar sobre) ainda existe?
Certamente existem homossexuais que ainda não se sentem seguros o suficiente para assumir publicamente sua orientação sexual. Considero isto totalmente compreensível já que o número de crimes motivados por homofobia não para de crescer. Muitos ainda experimentam repressão e violência simbólica dentro de casa, vinda da própria família. Em PORQUE EU AMEI o protagonista cresce ouvindo seus familiares dizerem que preferem morrer do que ter um filho gay. Em algum momento, a família chega mesmo a celebrar a violência contra um homossexual. Ao escrever estas cenas pensei em tantos adolescentes, espalhados pelo mundo inteiro, que têm sofrido por não poderem nem mesmo dialogar sobre suas dúvidas em relação à orientação sexual por medo da reação dos pais.
Muitas histórias gays não tem final feliz. Na sua opinião porque você acha que isso acontece?
Talvez isto aconteça pelo fato de as histórias apenas repetirem a realidade. Não se pode negar o avanço em relação aos direitos dos homossexuais. Entretanto, quando penso em situações tais como a do professor Cleides Antonio, da Universidade Federal do Tocantins, que foi assassinado por homofobia, penso que a literatura e a arte de modo geral devem ser espaços de denúncia destas realidades.Um final infeliz incomoda os leitores, faz pensar… Ainda há muitos passos a serem dados para que o destino dos homossexuais brasileiros, enquanto coletividade, seja feliz. Basta ver, por exemplo, a batalha que o deputado Jean Wyllys tem enfretado na luta pela criminalização da homofobia.
Quais são suas referências literárias?
Minha grande inspiração é Érico Veríssimo. Foi nas páginas de “O tempo e o vento” que me apaixonei pela literatura. Além disto, meu trabalho é influenciado pelas obras dos americanos Dennis Lehane e Lev Raphael, que escreveu o prefácio de PORQUE EU AMEI.
E a reação do público diante de PORQUE EU AMEI. Como foi?
Tem sido fantástica. Tenho recebido muitos e-mails de agradecimento. Por exemplo, uma mulher me escreveu dizendo que, depois de ler meu livro, passou a entender melhor o sobrinho dela que recentemente se assumiu homossexual. Recentemente, recebi uma mensagem longa de um rapaz que dizia que PORQUE EU AMEI fez com que ele percebesse a importância de cuidar de si mesmo, de si respeitar antes de embarcar em um relacionamento... É uma grande recompensa saber que meu livro não é apenas uma obra de entretenimento, mas um livro para fazer pensar...
Ser autor no Brasil como é?
É surpreendente. Aqui nos Estados Unidos, onde resido, tenho ido a vários eventos literários e conversado com escritores. Em alguns eventos, vejo escritores renomadíssimos com uma plateia de apenas dez ou doze pessoas. Já no Brasil, noites de autógrafos, por menores que sejam, reúnem uma pequena multidão.
O que podemos esperar de você nas futuras obras?
Com certeza uma boa história. Não escrevo todos os dias e também não paro para escrever antes de ter uma boa história construída em minha mente. Enquanto não me certificar de que a história que vou escrever merece o esforço e o tempo, não a escrevo.
Quais os futuros projetos?
Acabo de escrever um livro infantil. Além disto, a segunda edição de “Ética e Moral na Educação” sairá em breve… E, estou começando a construir uma continuação não linear para PORQUE EU AMEI. Estou louco para ver a Elisa Lucas bem velhinha, repensando o modo como criou os filhos.
E para finalizar, baseado em PORQUE EU AMEI, qual sentimento você acha que impera mais - o amor ou o desejo?
O amor se sobrepõe ao desejo. Melhor dizendo, o amor a si próprio vence o desejo de possuir um outro. Contudo, como na vida real, isto não acontece sem sofrimento.

8 comentários:
Parabéns pela entrevista :D
Já tinha imaginado uma continuação, mas sem pensar na Elisa repensando todas as atitudes. Acho que isso pode ser bem interessante, e torço para que isso de fato aconteça.
Interessante também ver a diferença que acontece entre os escritores nacionais e os americanos. Isso eu de fato não esperava :s
Abraços
Ricardo - www.overshock.blogspot.com
Fiquei muito feliz em conhecer um pouquinho mais sobre o Roque Neto. Quero muito ler Porque eu amei, apaixonada desde que li a resenha aqui *----*
Parabéns ao Literatura de Cabeça pela entrevista!!!
Galera, obrigado pelos comentários! Fico feliz que tenham gostado da entrevista o tanto que eu gostei de fazê-la.
Bjkas
Eu pensei que o autor era nacional, fiquei surpreso.
Amei mesmo a entrevista. A ideia de,e de escrever essa história foi bem interessante.
PEssoas não aceitam muito os homossexuais, e apesar de alguns aceitarem achamos bem estranho por não estarmos acostumados, mas isso vai passar com o tempo, tenho certeza.
Tomara que no futuro as pessoas compreendam e aceitem a decisão de cada um, e que um dia eles possam andar na rua juntos como qualquer casal.
Eu respeito e apoio a iniciativa do autor. Respeito muito os homossexuais, conheço um e o trato como qualquer amigo meu.
Respeito sempre.
Fiquei mais ansioso pra ler o livro, tomara que venha logo.
Douglas, ele mora nos EUA mas é brasileiro.
Bjkas
Ah, acho que não entendi! Mas agora sim, valew"
A entrevista está excelente. A última pergunta com a resposta fechou com chave de ouro.
Parabéns pela entrevista. Muito boas e bem colocadas as perguntas.
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